
A fazenda Canabrava submersa
Ritmo das águas vivas
Lourdes Nicácio
Bem dentro de mim armazenei
do São Francisco ilhas, barcos, capinzais
Cajus, goiabas,peixes, frutos de água doce
o clima fresco, o cheiro verde, o arrozal
Moinhos, rodas d’água, as carrancas
as pedras, os banhos, as roupas brancas
Gestos florais de cachoeiras e águas mansas
cheiro de argila e bebedouro nas vazantes
Moitas, arbustos, diademas de cipós
sombras da fauna, maretas, faixas de areia
Vitalidade permanente, tanto encanto,
tesouro antigo dos palácios das Sereias
A imensidão dos campos e rebanhos
culto aos pastores, agricultores, remeiros
Lições de vida, pores-do-sol, rituais
que o Vale tece como artesão dos milagres
Sementes, pétalas, raízes em superfície
balsas de adubo rastreando as margens ativas
Daí por que de mim emanam, também, melodias
ou seiva do rio inteiro, em ritmo das águas vivas.
Sertanejo
Lourdes Nicácio
Sobre o teu peito
a luz,o ouro, o bronze
- um sol já tecido
exposto às manhãs
Nas mãos a firmeza
de um condutor sagrado
protetor da terra
área dos milagres
Na voz, a força
o cetro, o Império
Nos pés, arbustos
e o passo firme
Dos olhos
emanam mistérios:
lendas, pássaros, frutos
o rio
o sonho
a vida.